PAIXÃO, TRAIÇÃO E TRAGÉDIA NO CONTO "A CARTOMANTE", DE MACHADO DE ASSIS
Trabalho realizado para a disciplina de "Práticas Metodológicas de Educação Litetária"...eis a minha análise de "A cartomante", de Machado de Assis.
Viviane V.
Introdução
Neste trabalho, irei realizar uma análise do conto A Cartomante de Machado de Assis, publicado originalmente na Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro em 1884 e, depois incluído no livro Várias Histórias de 1896. O autor, um dos mais prestigiados da literatura brasileira e também “[...] o maior escritor brasileiro, cultivou com igual talento o conto, o romance e a crônica, além da poesia, do teatro e da crítica” (TELLES, 2002, p.170), integra-se na escola literária nomeada de Realismo, que conviveu juntamente com o Naturalismo.
O Realismo, uma das principais escolas literárias do século XIX, é por sua vez, caracterizado, principalmente, pela objetividade e não idealização da sociedade, assim como por uma ironia. Coutinho (2002) menciona que o Realismo é uma oposição habitual ao idealismo (consequentemente, ao Romantismo), em virtude da opção de enxergar a realidade tal como ela é, e não como ela deveria ser. Dessa forma, devem-se encarar o Realismo e o Naturalismo como movimentos específicos do século XIX. Porquanto antes de se concretizarem numa epoca histórica, eles eram categorias estéticas ou temperamentos artísticos, tendências gerais da alma humana em diversos tempos, como Classicismo e Romantismo, surgindo o Realismo sempre que se dá a união do espírito à vida, plena objetiva pintura da realidade (COUTINHO, 2002, p. 4).
Ademais, é importante destacar a época histórica na qual o Realismo se materializou. O século XIX é marcado por progressos científicos em vários campos de conhecimento humano, sobretudo na biologia, com o darwinismo; sob o aspecto social-político houve o advento da burguesia e a sua consolidação, sob influência, principalmente, da Revolução Francesa. Além disso, “acreditou-se no impulso humanitário, conciliando a educação da massa e o socialismo com o culto do poder político e glória militar e nacional” (COUTINHO, 2002, p. 6). Desse modo, trata-se de um mundo permeado por intensas transformações em todos os âmbitos sociais, econômicos, políticos e culturais que exerceram a sua influência na literatura, fatores que irão ser observados durante a análise deste conto proposto.
Outrossim, dito isto, para este estudo de A Cartomante, irei utilizar o método proposto pelo autor Flávio Aguiar, contido no livro Outras Leituras (2000), na qual ele propõe que a aproximação crítica da obra literária deve-se partir de quatro operações: a paráfrase, a análise, a interpretação e o comentário.
Dessa forma, na paráfrase irei recontar a história de A cartomante, de modo que o leitor deste trabalho possa familiarizar-se com o enredo e com a narrativa do conto. Em seguida, realizarei uma análise do conto, que trata-se da caracterização dos elementos internos da obra como o narrador, o tempo, o espaço, as personagens e o foco narrativo, embasado nas teorias literárias. Depois, passarei para a interpretação, na qual relacionaremos aspectos do conto a outras áreas do conhecimento, como a filosofia, a sociologia, a psicologia e tantas outros campos que possam colaborar com a construção do significado da obra. Por fim, também acrescentarei comentários esporádicos durante essas etapas do trabalho, estes que serão pertinentes para o momento da análise ou interpretação do conto.
A cartomante: um revés à três
A Cartomante é um conto que se centra em torno de três personagens e o seu triângulo amoroso: Rita, Camilo e Vilela, sendo que Rita e Vilela são casados e Camilo é um amigo de infância de Vilela.
Tudo começa numa sexta-feira de novembro de 1869, quando Rita conta ao moço Camilo que havia consultado uma cartomante e que esta havia adivinhado que ele gostava dela. Camilo então reafirma à Rita o seu amor por ela, porém alerta que as visitas à cartomante podem provocar uma desconfiança em Vilela. Rita, por sua vez, reafirma Camilo, dizendo que ela foi cuidadosa e que a casa da cartomante ficava perto, na Rua da Guarda Velha.
É certo que Camilo, que trabalhava como funcionalista, contra o desejo do pai de vê-lo um médico, ficou encantado com a esposa do amigo de infância desde o momento em que Vilela e Rita voltaram da província, depois de seu casamento. Primeiramente, ela era charmosa e mais velha que os dois e, com a morte da mãe de Camilo, um desastre que o abalou, houve um aproximadamente entre os três.
Além do mais, Camilo passou a, particularmente, receber afetos mais frequentes de Rita, ele a chamava de sua “enfermeira moral”, era o consolo do luto que ele estava sofrendo. Eles passaram a ler juntos, a jogar xadrez nas noites, iam à passeios junto, como ao teatro. Todos esses afetos, em um dado momento, progrediram para uma paixão proibida. E, tal paixão passou a tomar corpo depois que Camilo recebeu um bilhetinho caloroso e vulgar o cumprimentando pelo aniversário. Foi um pedaço de papel que catalisou o início desta paixão ardente.
Porém, os dias de paixão começaram a ser atordoados quando Camilo recebeu uma carta anônima, insultando-o como “imoral” e “pérfido”, além de afirmar que o caso entre ele e Rita era conhecido por todos. Desse modo, o moço decidiu restringir as suas visitas à casa de Vilela. Tal fato deixou Rita preocupada, assim, voltou a consultar a cartomante para saber os reais motivos da ausência de Camilo, que a assegurou que nada havia de errado.
As cartas para Camilo não pararam de chegar, o que resultou em sua desconfiança e afastamento por meses da casa do casal. Entretanto, houve um dia que Camilo recebeu um bilhete de Vilela o chamando para ir à sua casa com urgência. Depois de muito pesar, Camilo resolveu ir. No caminho, quando chegava ao fim da Rua da Guarda Velha, viu a casa da cartomante e não conteve-se. Na sua consulta, a cartomante o assegurou: ele não deveria preocupar-se com nada, nem com ele e com Rita, pois tudo estava bem.
Dessa forma, Camilo sentiu-se aliviado ao ir até a casa de Vilela. Todavia, o seu triste fim o esperava lá, chegou e encontrou Rita morta ao chão sobre o canapé e Vilela com uma arma, puxou-o pela gola e também o matou.
Dito isto, como já observado acima, o fim desse conto é um tanto inesperado. O narrador, que é em terceira pessoa, conhece as personagens do conto de uma forma bastante íntima, sempre provendo o leitor com detalhes sobre os seus sentimentos, eis o seu aspecto onisciente. Além disso, pode-se observar alguns casos de intrusão dos pensamentos das próprias personagens na narrativa do conto, como em “Se ele não acreditava, paciência; mas o certo é que a cartomante adivinhara tudo. Que mais?” (ASSIS, 1886, p. 1).
Além disso, a ocorrência de diálogos durante a narrativa é bastante frequente, e tal fator também é de ordem formal, pois trata-se de um conto, na qual o diálogo é previsto e comum porque ele possui as suas origens na tradição oral. Segundo Gotlib (1990, p. 13, grifo da autora), o conto desenvolveu-se assim: “Antes, a criação do conto e sua transmissão oral. Depois, seu registro escrito. E posteriormente, a criação por escrito de contos, quando o narrador assumiu esta função: de contador-criador-escritor de contos, afirmando, então, o seu caráter literário”. Assim, o escritor é também um contador de histórias.
O enredo da história possui um tempo cronológico linear, mas com alguns flashbacks. A história inicia-se com uma conversa entre Rita e Camilo, na qual ela está contando um fato passado (a sua ida à cartomante); o foco narrativo que se dá, principalmente, sob Camilo, busca informações passadas, por meio de flashbacks, como em “Vilela, Camila e Rita, três nomes, uma aventura e nenhuma explicação das origens. Vamos a ela”. O termo “vamos a ela” indica que o narrador recorrerá a fatos/acontecimentos passados sobre a vida das personagens, ou seja, flashbacks.
Outro aspecto importante de destacar é que o conto é permeado por diferentes espaços, que se fazem notórios e importantes para a história, como a Rua da Guarda Velha, onde se localizava a casa da cartomante. Esta rua encontra-se na cidade do Rio de Janeiro, sendo conhecida como “Rua da Guarda Velha” por conta da necessidade de haver no século XVIII, um posto da guarda municipal para organizar a fila de escravos que iam buscar água no Chafariz da Carioca e, o adjetivo velha, apareceu depois da instalação de outros tantos postos depois instalado por lá (SOARES, [2001?]).
Além desta, há a casa de Vilela, na qual se localizava em Botafogo e a qual residia com a sua esposa Rita. Um fator importante de perceber-se é que para chegar na casa de Vilela, era necessário descer a Rua da Guarda Velha, assim, parece inevitável que, para se chegar na casa do casal, também passará pela casa da cartomante.
Um quarteto de diferentes faces
A cartomante possui quatro personagens que são essenciais para a narrativa: Rita, Camilo, Vilela, que formam o triângulo amoroso e a cartomante em si. Sobre eles, é importante considerar a concepção de que “Como seres humanos encontram-se integrados num denso tecido de valores de ordem cognoscitiva, religiosa, moral, político-social e tomam determinadas atitudes em face desses valores” (CANDIDO et al, 2014. p. 45), assim, são personagens que possuem valores específicos dentro da narrativa. Ainda, é possível dizer que, a cartomante funciona como um intermédio entre a relação de Camilo e Rita, porque é nela que esses dois personagens vão para declarar as suas confissões.
Além disso, outro aspecto importante dessas personagens é que nenhuma delas são personagens planas, ou seja, construídas a partir de uma única ideia ou qualidade, são personagens esféricas ou redondas: “suas características se reduzem essencialmente ao fato de terem três, e não duas dimensões; de serem, portanto, organizadas com maior complexidade e, em consequência, capazes de nos surpreender" (CANDIDO et al, 2014, p. 63) e ainda “ela traz em si a imprevisibilidade da vida” (ibidem). O conto, apesar de ser uma narrativa em menor extensão que o romance, não significa uma obra literária de menor valor estético, ainda mais quando se trata de um conto de Machado de Assis. Dessa forma, todas as suas personagens são tridimensionais, que ora ocupam um papel dentro na narrativa, ora outro.
Ademais, para elucidar este aspecto, a cartomante, uma personagem tão presente que tem como o título do conto, é um exemplo de personagem trimendisional: ela é ao mesmo tempo quem assegura Rita e Vilela em sua “relação proibida” e, ao mesmo tempo, aquela que, simbolicamente, orquestra e condiciona os acontecimentos de suas fatalidades, “uma mulher de quarenta anos, italiana, morena e magra, com grandes olhos sonsos e agudos” (ASSIS, 1896, p. 5).
Já Rita é caracterizada como uma mulher sedutora, “era graciosa e viva nos gestos, olhos cálidos, boca fina e interrogativa”, ou seja, era uma mulher bastante idealizada a um certo padrão de beleza feminino. Porém, ela não era ingênua. Os seus atos mostram, desde o início, que era mulher com iniciativa e que iria atrás daquilo que desejava, como foi relatado sobre o começo da relação dela com Camilo, na qual foi ela quem tomou o primeiro passo de fato. Ainda, ela quem primeiro foi até a cartomante para confirmar se Camilo realmente gostava dela; este aspecto além de demonstrar uma atitude perante à seu desejo amoroso, também mostra alguns valores de misticismo do qual a personagem parecia acreditar.
Camilo é o homem na qual o foco narrativo possui mais atenção. Ele é uma personagem que é marcada por momentos de indecisões e incertezas. Além de ser também caracterizado como um personagem medroso indeciso, principalmente depois de receber as cartas anônimas denunciando o caso que ele estava tendo com a Rita: “Camilo teve medo, e, para desviar as suspeitas, começou a rarear as visitas à casa de Vilela” (ASSIS, 1896, p. 3).
Assim, tem-se um personagem que é dominado pelo medo de ser descoberto pela falácia que ele é. É um medo de ser visto como imoral e pérfido aos olhos da sociedade burguesa e pelo seu melhor amigo Vilela. Entretanto, apesar disso, ao final do conto, ele ainda toma a coragem de visitar a casa da cartomante, uma cena na qual esta aparece personificada, tomou vida e o chamou para dentro, local no qual ditaria o seu próprio fim: “A casa olhava para ele. As pernas queriam descer e entrar…” (ASSIS, 1896, p. 5).
Sobre Vilela, pode-se dizer que ele não é uma personagem presente em seu aspecto físico dentro da narrativa, não há um momento de interação no presente com as outras personagens, tudo é dito por meio da retomada da narração: ele é um homem formado em advocacia, amigo de infância de Camilo, que se casou com Rita em uma província.
Entretanto, se Vilela não é presente fisicamente em todos os momentos da narrativa e o foco narrativo sobre o seu personagem é desviado, ele é totalmente ocupado pelo imaginário das duas outras personagens: Rita e Camilo. Tal fator é bastante marcado quando Vilela começa a desconfiar do casal, depois que Camilo para com as visitas frequente da casa: “Este [Vilela] notou-lhe as ausências. Camilo respondeu que o motivo era uma paixão frívola de rapaz. Candura gerou astúcia” (ASSIS, 1896, p. 3). Logo, pode-se inferir que, a partir desse, há um afastamento entre esses dois personagens.
Desse modo, pode-se dizer que a construção da personagem Vilela vai além do aspecto físico, ele é aquele que provoca o tormento psicológico e a preocupação nos outros dois e, também, no final, quem os tira da vida e a impossibilidade de continuar com o adultério.
A paixão, a traição e a tragédia: um triângulo fatal
O conto A Cartomante possui alguns momentos que estão interligados: o amor entre Rita e Camilo é originado de uma traição, que ocasiona em uma tragédia final. Dessa forma, tem-se um ciclo que possui um fim trágico.
Os aspectos da tragédia clássica, misturado com a ironia machadiana, que é caracterizada por Coutinho (2002, p. 156) como um recurso “[...]que sempre serve para retificar os excessos de sentimentalismo, e dar um cunho realista e objetivo às difusas impressões que procura organizar em narrativas”, podem ser observados na narrativa.
A tragédia por sua vez, segundo Aristóteles (Poética, 448, 1450a, 35-40), é caracterizada como “é a imitação de uma ação e se executa mediante personagens que agem e que diversamente, conforme o próprio caráter e pensamento que nós qualificamos as ações”, sendo que é nas ações que a boa ou má fortuna se originam (ibidem). Ora, a má fortuna de Camilo e Rita se originam de suas ações; os seus atos que permanecem em um ciclo vicioso, sem um fim definitivo para o adultério do qual os dois engatam, o levam à sua tragédia.
Outro aspecto que se refere à conotações da tragédia é uma citação de um trecho da peça (trágica) de Hamlet, logo no início do conto: “Hamlet observa a Horácio que há mais coisas no céu e na terra do que sonha a nossa filosofia” (ASSIS, 1896, p. 1). Essa referência é pertinente à narrativa porque: “[...] ressalta sua natureza melodramática ao tratar do triângulo amoroso de um adultério”.
Posto isto, o adultério, por sua vez, é caracterizado como uma transgressão do matrimônio, dado quando alguém dentro deste contrato o viola, por meio de relações carnais com outrem fora do casamento. É um pecado bíblico, assim, considerando-se a sociedade burguesa da primeira metade do século XIX, na qual o seu contexto religioso cristão, “é considerado especialmente pela historiografia protestante como propício à sua inserção no campo religioso brasileiro” (KITAGAWA, 2013, p. 1), a pessoa que pratica o adultério seria considerada uma imoral e pecadora nos olhos da grande maioria da sociedade e, em alguns casos, isto poderia levar até há uma exclusão social-econômica deste indivíduo.
Diante disto, entende-se o motivo do medo de Camilo sobre ser descoberto: ser um imoral diante da sociedade, ainda mais para um homem de respeito, funcionalista, tamanha seria a sua incidência. Rita, como mulher seria ainda mais julgada, tratada como se um adultério fosse realizado apenas por uma pessoa.
É importante destacar que este medo de Camilo é acentuado quando ele começa a receber as cartas anônimas, fazendo com ele diminua as suas visitas na casa de Vilela e, por conseguinte, provocando a desconfiança nele. A desconfiança de Vilela é outro ponto importante a ser destacado pois há uma mudança na representação da personagem, como em: “Este [Vilela] notou-lhe as ausências. Camilo respondeu que o motivo era uma paixão frívola de rapaz. Candura gerou astúcia” (ASSIS, 1896, p. 3, grifo nosso) e depois em “Vilela começou a mostrar-se sombrio, falando pouco, como desconfiado” (ibidem). Consequentemente, o que antes era uma relação amigável entre os dois amigos de infância gerou uma astúcia. Astúcia, no dicionário Michaelis online, é definida como “Habilidade em enganar alguém, sem que a pessoa se dê conta disso, a fim de levar algum tipo de vantagem”. Portanto, é por meio dessas pistas deixadas pelo narrador que é possível averiguar que, a partir desse momento, Vilela começa a tornar-se naquele homem que assassinaria Rita e Camilo porque com a sua astúcia ele começa a planejar a sua vingança, sem que ninguém saiba.
Outro acontecimento que é essencial na tomada de ações das personagens é quando Camilo recebe uma carta diretamente de Vilela com um convite para ir à casa do amigo com urgência. Tal episódia também marca o clímax da narrativa, ou seja, o ponto culminante, o ápice que leva aos acontecimentos do fim, pois se Camilo não estivesse recebido esta carta específica de Vilela com as instruções, a história poderia ter tomado um outro rumo e o ciclo adulterioso poderia ter se estendido.
Além disso, o tom narrativo entrega pistas ao leitor que a paixão proibida entre Camilo e Rita não terá um fim com confeitos e alegrias. Há uma certa ignorância dos personagens sobre os seus atos e ações, fator que relembra a construção da tragédia de Édipo Rei, na qual, Édipo, com a sua teimosia inicial, ignorou todos os fatores até o oráculo de Delfos acerca da profecia, que acabou se concretizando (matara o seu próprio pai e casara-se com a própria mãe, sendo os pai de seus filhos e filhas).
Aliás, outro momento em que a citação é retomada é quando Camilo está em dúvida se deve ou não entrar na casa da cartomante depois de ter recebido a carta de Vilela o chamando para um encontro urgente em sua casa. Nesta ocasião, ele indaga o seguinte: se há mais coisas no céu e na terra do que sonha a filosofia, o que ele teria a perder se entrasse na casa da cartomante? Bom, o leitor consciente, depois de ter terminado o conto, sabe que isto levaria ao seu fim, mas este fim já é aclamado por meio de outras simbologias deixadas pelo narrador, exemplo disto em: “Ao passar pela Glória, Camilo olhou para o mar, estendeu os olhos para fora, até onde a água e o céu dão um abraço infinito, e teve assim uma sensação do futuro, longo, longo, interminável”. Nesta passagem os termos como: Glória, mar, céu, infinito, interminável, denotam uma simbologia transcendental, é um momento de paz e tranquilidade para o que estaria por vir.
Dessa forma, é predestinado. Poderia-se dizer que a figura da cartomante seria um oráculo (como o de Delfos) que solucionou o seu dilema em relação à carta “Vem já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora” (ASSIS, 1896, p. 3) de Vilela, mas a sua função age ao contrário: é um oráculo que direciona para o caos e a tragédia, entretanto, não é a causadora da tragédia. Vilela, personagem que foi omisso em sua participação, dita o fim: mata Rita, a sua esposa e, logo depois, quando Camilo finalmente chega em sua casa, também o mata.
Além do mais, outro levantamento que pode-se fazer, a partir da narrativa, é que Rita e Camilo trouxeram este fim para eles mesmos, todavia, o fim definitivo (morte) foi posto por Camilo, pois foi ele quem praticou o ato de puxar o gatilho, encerrando, assim, este ciclo de paixão, traição por meio de uma tragédia. Para mais, o próprio Camilo, depois da visita à cartomante, quando esta dita a palavra final (que tudo está bem e que ele pode ir até a casa de Vilela sem preocupações), invoca um pensamento simbólico de seu futuro iminente: “O presente que se ignora vale o futuro” (ASSIS, 1896, p. 6). Essa frase é posta como um símbolo, uma profecia dos acontecimentos que irão ocorrer.
Ademais, a cena final marca, claramente, uma quebra de decoro dentro da narrativa. Flávio Aguiar (2000) diz que toda a obra de arte impõe um decoro peculiar. De forma simplificada, os leitores criam expectativas sobre as personagens de acordo com o que elas representam e o papel que elas assumem. Portanto, de personagens cômicos, espera-se gestos cômicos; de trágicos, gestos trágicos e assim por diante. Dito isto, “A esse conjunto de expectativas geradas e de gestos que com elas estejam de acordo, chamamos decoro” (AGUIAR, 2000, p. 3, grifo do autor) e as quebras pertinentes de decoro durante a narrativa, segundo o autor, provocam ironia e despertam a crítica.
Ademais, a quebra de decoro acontece na cena final por conta do ato de Vilela, pois, o leitor não esperava que ele fosse assassinar o seu melhor amigo de infância e a sua esposa. Tal fator ocorre porque esta personagem pouco interferiu na narrativa, dessa forma, os traços de sua personalidade estavam apenas implícitos no texto.
Logo, a quebra de decoro, na cena final, é resultado de uma progressão de acontecimentos e ações das personagens durante a narrativa: das travessas no adultério de Camilo e Rita; as idas à cartomante; as cartas anônimas e a carta de Vilela; e, é especialmente, o que provoca o choque e a ironia na leitura deste conto.
Considerações finais
Neste estudo, busquei analisar e interpretar alguns aspectos relacionados à construção das personagens, suas ações e suas consequências no conto A Cartomante de Machado de Assis.
Em suma, o conto A Cartomante, está inserido em um período no qual a produção de Machado de Assis possui alguns aspectos pelos quais são bem específicos, que dizia respeito à essência do homem, mas em sua precariedade existencial (COUTINHO, 2002). Dessa forma, as suas personagens não possuíam uma caracterização da moral típica das convenções esperadas pelos valores da sociedade burguesa da época.
Além disso é bastante evidente os aspectos formais da tragédia e do cômico dentro deste conto para narrar, como posto por Neto (2012, p.175), o “melodrama burguês” vivido por Camilo, Rita e Vilela.
Por fim, A Cartomante é um conto curto, pode, pode ser objeto de várias reflexões, como as quais realizamos neste estudo. Com isso, é possível perceber que o conto A Cartomante, que pode ser visto como uma literatura de "menor valor” (por conta de ser um conto), é transcendental ao seu tempo e ainda continua a vigorar dentro do nosso sistema literário, sendo estudada e apreciada pelos críticos e leitores.
Referências
AGUIAR, Flávio. As questões da crítica literária. In: Outras Leituras: Literatura, Televisão, Jornalismo de arte e cultura, Linguagens Interagentes. São Paulo: Itaú Cultural/Senac, p. 19-35, 2000.
ARISTÓTELES. A poética. Tradução de Eudoro Souza. 1.ed. São Paulo: Abril Cultural, 1973.
ASSIS, Machado. A cartomante. [S.I.:s.n]. 1886.
ASTÚCIA. In: Michaelis On-line: Dicionário brasileira da língua portuguesa. 2022. Disponível em: https://biblio.direito.ufmg.br/?p=5742. Acesso em: 28 set. 2022.
CANDIDO, Antonio et al. A personagem de ficção. 13.ed. São Paulo: Perspectiva, 2014.
COUTINHO, Afrânio. A literatura no Brasil: era realista, era de transição. 6.ed. São Paulo: Global, 2002.
GOTLIB, Nádia Battella. Teoria do conto. 5.ed. São Paulo: Ática, 1990.
KITAGAWA, Sergio Tuguio Ladeira. O contexto religioso cristão do Brasil no século XIX: notas para um debate historiográfico. In: XXVII Simpósio Nacional de História, 2013.
NETO, Dário Ferreira de Sousa. A cartomante: uma tragicomédia machadiana. Revista Machado de Assis em Linha, v. 5, p. 171-185, 2012.
SOARES, Marcelo Pacheco Soares. As ruas do Rio de Janeiro oitocentista e a construção de sentidos no conto “Pai contra mãe”, de Machado de Assis, [ 2001?]. Páginas luso-brasileiras em movimento, ISBN 978-65-00-03730-2. Disponível em: http://www.paginasmovimento.com.br/machado-de-assis-as-ruas-do-rio.html. Acesso em: 26 set. 2022.
TELES, Gilberto Mendonça. Para uma poética do conto brasileiro. Revista de filologia românica, v. 19, p. 161-182, 2002.
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